segunda-feira, janeiro 07, 2008





Ler o artigo do António Barreto do Público de 25 de Novembro sobre a ASAE dá uma volta profunda e total às entranhas. Dá vontade de pegar num garrafão de gasóleo, regar o edifício da Visconde Valbom e deitar-lhe fogo. Deitar fogo a todos esses decretos que vão acabar com a nossa saúde mental, que acabam com o que nos restava de civilização.


Aqui fica.



ELES ESTãO DOIDOS!Por António BarretoPublico 25.11.07


A MEIA DÚZIA DE LAVRADORES que comercializam directamente os seus produtose que sobreviveram aos centros comerciais ou às grandes superfícies vai agora ser eliminada sumariamente. Os proprietários de restaurantes caseiros que sobram, e vivem no mesmo prédio em que trabalham,preparam-se, depois da chegada da 'fast food', para fechar portas e mudar de vida. Os cozinheiros que faziam a domicílio pratos e 'petiscos', a fim de os vender no café ao lado e que resistiram a toneladas de batatasfritas e de gordura reciclada, podem rezar as últimas orações. Todos os que cozinhavam em casa e forneciam diariamente, aos cafés e restaurantes do bairro, sopas, doces, compotas, rissóis e croquetes, podem sonhar comoutros negócios. Os artesãos que comercializam produtos confeccionados à sua maneira vão ser liquidados.A SOLUÇÃO FINAL vem aí. Com a lei, as políticas, as polícias, os inspectores, os fiscais, a imprensa e a televisão. Ninguém, deste velhomundo, sobrará. Quem não quer funcionar como uma empresa, quem não usa os computadores tão generosamente distribuídos pelo país, quem não aceita as receitas harmonizadas, quem recusa fornecer-se de produtos ematérias-primas industriais e quem não quer ser igual a toda a gente estácondenado. Estes exércitos de liquidação são poderosíssimos: têmEstado-maior em Bruxelas e regulam-se pelas directivas europeias elaboradas pelos mais qualificados cientistas do mundo; organizam-se nogoverno nacional, sob tutela carismática do Ministro da Economia e da Inovação, Manuel Pinho; e agem através do pessoal da ASAE, a organização mais falada e odiada do país, mas certamente a mais amada pelasmultinacionais da gordura, pelo cartel da ração e pelos impérios doaçúcar. EM FRENTE À FACULDADE onde dou aulas, há dois ou três cafés onde osestudantes, nos intervalos, bebem uns copos, conversam, namoram e jogam àscartas ou ao dominó. Acabou! É proibido jogar!Nas esplanadas, a partir de Janeiro, é proibido beber café em chávenas de louça, ou vinho, águas, refrigerantes e cerveja em copos de vidro. Tem de ser em copos de plástico.Vender, nas praias ou nas romarias, bolas de Berlim ou pastéis de nata quenão sejam industriais e embalados? Proibido. Nas feiras e nos mercados, tanto em Lisboa e Porto, como em Vinhais ou Estremoz, os exércitos dos zeladores da nossa saúde e da nossa virtudefazem razias semanais e levam tudo quanto é artesanal: azeitonas, queijos, compotas, pão e enchidos.Na província, um restaurante artesanal é gerido por uma família que tem, ao lado, a sua horta, donde retira produtos como alfaces, feijão verde,coentros, galinhas e ovos? Acabou. É proibido. Embrulhar castanhas assadas em papel de jornal? Proibido.Trazer da terra, na estação, cerejas e morangos? Proibido. Usar, na mesa do restaurante, um galheteiro para o azeite e o vinagre éproibido. Tem de ser garrafas especialmente preparadas. Vender, no seu restaurante, produtos da sua quinta, azeite e azeitonas,alfaces e tomate, ovos e queijos, acabou. Está proibido. Comprar um bolo-rei com fava e brinde porque os miúdos acham graça?Acabou. É proibido. Ir a casa buscar duas folhas de alface, um prato de sopa e umas fatias defiambre para servir uma refeição ligeira a um cliente apressado? Proibido. Vender bolos, empadas, rissóis, merendas e croquetes caseiros é proibido. Só industriais.É proibido ter pão congelado para uma emergência: só em arcas especiais ecom fornos de descongelação especiais, aliás caríssimos. Servir areias, biscoitos, queijinhos de amêndoa e brigadeiros feitos pela vizinha, uma excelente cozinheira que faz isto há trinta anos? Proibido.AS REGRAS, cujo não cumprimento leva a multas pesadas e ao encerramento do estabelecimento, são tantas que centenas de páginas não chegam para as descrever.Nas prateleiras, diante das garrafas de Coca-Cola e de vinho tinto tem dehaver etiquetas a dizer Coca-Cola e vinho tinto.Na cozinha, tem de haver uma faca de cor diferente para cada género.Não pode haver cruzamento de circuitos e de géneros: não se pode cortar cebola na mesma mesa em que se fazem tostas mistas.No frigorífico, tem de haver sempre uma caixa com uma etiqueta 'produto não válido', mesmo que esteja vazia.Cada vez que se corta uma fatia de fiambre ou de queijo para uma sanduíche, tem de se colar uma etiqueta e inscrever a data e a hora dessaoperação.Não se pode guardar pão para, ao fim de vários dias, fazer torradas ou açorda.Aproveitar outras sobras para confeccionar rissóis ou croquetes? Proibido. Flores naturais nas mesas ou no balcão? Proibido. Têm de ser de plástico,papel ou tecido.Torneiras de abrir e fechar à mão, como sempre se fizeram? Proibido. As torneiras nas cozinhas devem ser de abrir ao pé, ao cotovelo ou com célula fotoeléctrica.As temperaturas do ambiente, no café, têm de ser medidas duas vezes pordia e devidamente registadas.As temperaturas dos frigoríficos e das arcas têm de ser medidas três vezes por dia, registadas em folhas especiais e assinadas pelo funcionário certificado.Usar colheres de pau para cozinhar, tratar da sopa ou dos fritos?Proibido. Tem de ser de plástico ou de aço.Cortar tomate, couve, batata e outros legumes? Sim, pode ser. Desde que seja com facas de cores diferentes, em locais apropriados das mesas e das bancas, tendo o cuidado de fazer sempre uma etiqueta com a data e a horado corte.O dono do restaurante vai de vez em quando abastecer-se aos mercados e leva o seu próprio carro para transportar uns queijos, uns pacotes de leite e uns ovos? Proibido. Tem de ser em carros refrigerados.TUDO ISTO, como é evidente, para nosso bem. Para proteger a nossa saúde.Para modernizar a economia. Para apostar no futuro. Para estarmos na linha da frente. E não tenhamos dúvidas: um dia destes, as brigadas vêm, comestas regras, fiscalizar e ordenar as nossas casas. Para nosso bem, poisclaro.«Retrato da Semana» - «Público» de 25 de Novembro de 2007




_manel

domingo, dezembro 30, 2007

Os museus estão na Rua

As cidades têm crescido demasiado depressa, num processo difícil de combater, isto tem levado à segregação entre os Habitantes e as Metrópoles, mas assim como sempre existem aqueles que respondem. Ocupa-se o espaço que nunca se teve, transformando a terra de ninguém na terra de todos.

Os jovens não têm voz, e nas escolas há mais opressão do que expressão e discussão. Uma das respostas é vir para a rua com uma lata de tinta e pintar a sua marca, do seu grupo, do seu bairro, as suas criticas e reivindicações nas paredes, cada vez mais ocupadas por publicidade, publicidade para consumir o inconsumível, publicidade que ninguém quer, mas tudo ocupa.

Viva toda a malta que faz bater a esfera no ferro da lata e lança spray sobre estas paredes falsas da cidade, viva toda a malta dos subúrbios que ocupa os seus bairros com tintas e vão ao centro mostrar que os subúrbios também têm voz. A Maior Arte é aquela todos podem fazer, a Maior Arte é aquela que todos podem ver, Os subúrbios são a vanguarda da metrópole, a Tinta é uma das suas principais vozes. Murais! Grafftis! Stencils! Os museus estão na Rua!

P.S. Convido todas as pessoas a verem o trabalho do Artista de rua Londrino Banksy o seu site http://www.banksy.co.uk/
P.S. Passou um filme muito bom no Doc Lisboa 2007 sobre a arte de rua que também acho que não deviam perder, deve andar pelas bandas do youtube. "Bomb It" Jon Reiss 2007









Stencil Bairro Alto. Mural México. Stencil Londres (Banksy). Graffiti Paris

_pedro

quinta-feira, novembro 15, 2007

Os novos antropófagos: Artistas da periferia de São Paulo lançam sua própria Semana de Arte Moderna



Manifesto da Antropofagia Periférica

"A Periferia nos une pelo amor, pela dor e pela cor. Dos becos e vielas há de vir a voz que grita contra o silêncio que nos pune. Eis que surge das ladeiras um povo lindo e inteligente galopando contra o passado. A favor de um futuro limpo, para todos os brasileiros.A favor de um subúrbio que clama por arte e cultura, e universidade para a diversidade. Agogôs e tamborins acompanhados de violinos, só depois da aula.Contra a arte patrocinada pelos que corrompem a liberdade de opção. Contra a arte fabricada para destruir o senso crítico, a emoção e a sensibilidade que nasce da múltipla escolha.A Arte que liberta não pode vir da mão que escraviza.A favor do batuque da cozinha que nasce na cozinha e sinhá não quer. Da poesia periférica que brota na porta do bar.Do teatro que não vem do “ter ou não ter...”. Do cinema real que transmite ilusão.Das Artes Plásticas, que, de concreto, querem substituir os barracos de madeira.Da Dança que desafoga no lago dos cisnes.Da Música que não embala os adormecidos.Da Literatura das ruas despertando nas calçadas.A Periferia unida, no centro de todas as coisas.Contra o racismo, a intolerância e as injustiças sociais das quais a arte vigente não fala.Contra o artista surdo-mudo e a letra que não fala.É preciso sugar da arte um novo tipo de artista: o artista-cidadão. Aquele que na sua arte não revoluciona o mundo, mas também não compactua com a mediocridade que imbeciliza um povo desprovido de oportunidades. Um artista a serviço da comunidade, do país. Que, armado da verdade, por si só exercita a revolução.Contra a arte domingueira que defeca em nossa sala e nos hipnotiza no colo da poltrona.Contra a barbárie que é a falta de bibliotecas, cinemas, museus, teatros e espaços para o acesso à produção cultural.Contra reis e rainhas do castelo globalizado e quadril avantajado.Contra o capital que ignora o interior a favor do exterior. Miami pra eles? “Me ame pra nós!”.Contra os carrascos e as vítimas do sistema.Contra os covardes e eruditos de aquário.Contra o artista serviçal escravo da vaidade.Contra os vampiros das verbas públicas e arte privada.A Arte que liberta não pode vir da mão que escraviza.Por uma Periferia que nos une pelo amor, pela dor e pela cor.É TUDO NOSSO!"

Sérgio Vaz
Poeta da Periferia


A semana de 2007

No Manifesto Antropófago, lançado em 1928, Oswald de Andrade data o início do Brasil por um episódio insólito: a morte do Bispo Sardinha, devorado por índios canibais. É uma ironia para definir o conceito de arte antropofágica: os primeiros brasileiros digeriram ­ literalmente ­ a cultura européia. Com o Manifesto da Antropofagia Periférica, os organizadores da Semana de 2007 escrevem um capítulo inédito. Nele, os novos antropófagos tratam pouco de estética, muito de política e de comportamento. Sérgio Vaz comenta os principais pontos:1) Somos periféricos“Ninguém gosta de esgoto a céu aberto nem de barraco. Mas nós queremos mudar a periferia ­ e não da periferia.”2) Criamos nosso mercado“Nós produzimos a nossa arte. Estamos criando um outro mercado, o nosso. Vamos comprar nossos CDs, nossos livros, nossos filmes.”3) Sabemos consumir“Ninguém nos diz o que devemos consumir. Não podemos boicotar o Cirque du Soleil porque nunca tivemos dinheiro pra pagar. Mas podemos boicotar Ivete Sangalo, livro de auto-ajuda, um monte de coisas. Não queremos nossas filhas dançando na boquinha da garrafa nem cantando Festa no Apê. Nem nossos filhos precisando de tênis Nike. Nós boicotamos o pirata, porque não somos cidadãos de segunda classe, e boicotamos o original porque é ruim ou é caro ou não precisamos.”4) Queremos educação“Revolução sem r é evolução. Queremos escola de qualidade. Não pregamos a saída pela arte. Não dá pra todo mundo virar artista. As ONGs querem ensinar o povo a cantar e a dançar. A gente não agüenta esse discurso ongueiro, que pega R$ 1 milhão pra ensinar a batucar. TV, pra nós, é entretenimento. Nos preocupa a televisão que educa. Queremos escola que eduque. Se a escola educar, nossos filhos vão saber ver TV.”5) O artista tem de ser cidadão“Queremos artista comprometido com a comunidade. Não queremos arte que imbeciliza, teatro que quando acaba dá pra comer pizza, música que vende guaraná de manhã, macarrão à tarde e carro às 15 pras 8. Somos contra artista enriquecer. ”

Eliane Brum

"Poesia, artes plásticas, música e literatura. Assim como a Semana de Arte Moderna de 1922, evento que marcou a insatisfação dos artistas brasileiros com a arte vigente no começo do século XX, a periferia quer mostrar a cara e provar que nas franjas da sociedade também se faz arte de qualidade. Trata-se da Semana de Arte Moderna da Periferia – a Semana de 2007, que, entre os dias 5 e 10 de novembro, transformará espaços públicos de diversos pontos da zona sul da cidade de São Paulo (SP) numa mostra de artes produzida na periferia."
Karina Costa
Isto é um excerto do manifesto da antropofagia periférica que está a animar a periferia de São Paulo e a mobilizar muita gente no sentido de lutar por mudanças, tanto das imagens e discursos produzidos acerca destas áreas periférias (muitas vezes preconceituosas, rotulando-as de lugares do crime, vazios de iniciativas culturais e sociais, etc.), como das condições de vida dos seus habitantes. Aqui têm alguns links para poderem espreitar e desfrutar :)



clau_dinha



quinta-feira, novembro 08, 2007

Já Não Tenho Medo desses Patos Bravos*

Nos vidros da janela do meu quarto vêm-se as sombras dos patos bravos que sobrevoam a cidade, sinto um arrepio e escondo-me debaixo dos lençóis. Os seus olhos vêm frutos em qualquer território, as suas presas são fáceis porque existem patos bravos disfarçados de pessoas, preparam emboscadas para também ficarem com a carne, levam-nas sem que estas possam voltar. As suas asas deixam um rasto de destruição, os seus dentes desfazem qualquer símbolo de beleza, eles comem tudo e não deixam nada. Sei que nos vão perseguir, porque sempre o fizeram.

De noite oiço as ordens furiosas que mandam destruir os vales e as montanhas, as pedras e as árvores, para assim construírem betão até aos céus. Lá fora tanta gente sem casa, tanta casa sem gente, eles formam bandos que especulam, que especulam sem parar, o papo inchado quase rebenta de tanto cheio estar.

Tenho medo e só há uma forma de os parar, Juntar-me aqueles que também os receiam, ir lá fora encher o peito e gritar! Gritar até os afugentar!

*Patos bravos são todos aqueles que lucram com a construção massiva e desordenada que se vêm por essas terras fora. Os Patos Bravos não são apenas aqueles que coordenam as operações do betão, são principalmente todos os que controlam e colaboram com a especulação imobiliária. Constroem sobre bons solos e zonas ecologicamente frágeis, minando assim o nosso futuro. Destroem bairros, deixando pessoas sem sítio para dormir, constroem urbanizações sociais isoladas, descaracterizadas e já de base a cair, impossibilitando o direito a uma vida digna. A todos os patos bravos um grito para os afugentar.

Este texto foi escrito para integrar o Jornal Movementos - Pensar e Viver a Cidade. Do Movimento do I.S.A. ]move[ movimento aberto por outra vida na escola

_pedro

quarta-feira, outubro 17, 2007

Edgar Gouveia Júnior



vale a pena ler a entrevista com Edgar Gouveia Júnior, arquitecto brasileiro fundador do Instituto Elos que se dedica a fazer projectos em favelas e cortiços. tem a "teoria dos oásis" - acredita que um espaço de grande qualidade numa comunidade (como seja uma praça e uma série de equipamentos) pode ter efeitos surpreendentes na auto-estima e na vontade de mudar das pessoas do bairro. faz os projectos com a colaboração das pessoas. vale a pena ler para acreditar que outro tipo de coisas são possíveis.



_manel

segunda-feira, outubro 15, 2007

Barragem de Foz Tua gera apreensão em Mirandela e Murça por causa da ferrovia e das vinhas 04.10.2007 - 12h52 Lusa, PUBLICO.PT

O presidente da Câmara de Mirandela, José Silvano (PSD), sustentou hoje que a decisão do Governo de construir a barragem de Foz Tua vai acabar com o que resta do caminho-de-ferro no Nordeste Transmontano considera “incompreensível” que o Governo decida avançar com esta barragem, que vai submergir parte da linha do Tua, tornando aquela ferrovia inútil.
O presidente socialista da Câmara de Murça afirmou por seu lado estar “apreensivo” com a construção da barragem do Tua porque ela vai afectar vinhas durienses no concelho. O autarca reconhece, no entanto, que a barragem também poderá “trazer maior riqueza à região”. A barragem do Foz Tua, localizada na foz do rio Tua, que integra o Plano Nacional de Barragens hoje apresentado pelo ministro da Economia, representa um investimento de 177 milhões de euros e tem uma capacidade instalada de 234 megawatts (MW). Os cerca de 60 quilómetros que restam da linha do Tua, que liga Mirandela ao local com o mesmo nome do rio, são a única ligação ferroviária do Nordeste Transmontano. Esta linha liga a região ao litoral, no Porto, ao cruzar-se no Tua com a linha do Douro.


_manel

sábado, outubro 13, 2007

Mais uma torre mais alta


No seguimento da notícia publicada aqui, na Paisagir, a 11.08.2007, deixo, desta feita, mais um feito do senhor arquitecto.
Se bem que com diferentes enquadramentos políticos da notícia acima referida (e respectivos comentários), "um dos mais recentes projectos do OMA, a Torre Bicentenário, será a mais alta torre da América Latina e símbolo das comemorações, em 2010, dos 100 anos da Revolução Mexicana." (arq./a n.º49).


_diogo

quinta-feira, outubro 11, 2007

O cavalo ( ou borrego ) de Mazouco





uma paisagem inóspita, das mais inóspitas que há. ribanceiras, granitos escarpados e amontoados, e grifos a pairar. e depois um pequeno cavalo (ou borrego) gravado na rocha muda tudo. torna-se um lugar a que se vai para olhar o bicho, passa a haver uma razão para entrarmos no meio do inóspito. e aquele sítio torna-se nosso. foi concerteza a maneira mais inteligente, mais simples de tornar o selvagem e brutal acolhedor. antes da casa e da aldeia aquele pequeno cavalo gravado na rocha. como deveria ser reconfortante depois de dias perdido pelos montes, acossado por feras, encontrar aquele pequeno cavalo ali gravado na rocha.


_manel

Freixo de Espada à Cinta





Freixo de Espada à Cinta é num buraco. Uma cova estranha que não se percebe se é um vale, se uma cratera, não se percebe nada. Olha-se com atenção em busca de uma ribeira e nada, apenas pequenos regatos que parecem correr não seguindo qualquer lei da física. Fica ao lado do Douro mas não fica. O buraco não deixa perceber, nem sequer suspeitar, da existência de um rio ali tão perto. Quem venha de onde quer que seja, de Moncorvo, de Miranda ou de Barca de Alva nunca saberá quando está ou quando não está a chegar. Poderá apenas suspeitar da proximidade ao avistar bandos de grifos a sobrevoar enormes penedias de granitos. E depois entra-se dentro do buraco e não se percebe mais nada. Mas quando se sobe à torre heptagonal que sobrou do castelo, ou à pequena capela dos Montes Ermos, é um deslumbramento.


_manel

quarta-feira, outubro 10, 2007

Realidades virtuais. O lugar e a viagem.




Tavira flutua ainda na manhã, baloiçando entre a frescura de ser dia e a preguiça de ser tarde, mas é precisamente neste limbo que me acedo a abandoná-la. Parto em busca de um lugar próximo, referido por quem conhece por misterioso e belo. São 7km apenas a partir da cidade, sinuosos, cada vez mais enigmaticos, um passaporte para um qualquer desterro nos confins do mundo, mas chegamos finalmente. Estamos no Pego do Inferno. Outubro mas parece verão. Nunca vi nada tão verde. Um verde limão que encadeia e refresca os olhos, em plena serra algarvia, um percurso de escadas e rampas construidas numa estrutura de madeira alaranjada, uma ponte em arco (aqui so vemos o ceu, o verde das laranjeiras e um rio), caminhando ouvimos susurros de trabalhadores agrícolas que nos acompanham ocultos a uma lagoa estranhamente ainda mais verde que tudo o resto, tão profunda que se conta a história que uma carroça se despenhou e nunca mais submergiu. Duas pessoas entram na água mas rapidamente nadam para sair, o verde é em demasia, não é transparente e as lendas liquefazem-se à sua volta. Não permaneço mais de 5 min a olhar para a lagoa, tenho que voltar atrás, o caminho é longo, e de tão enigmatico desconforta, quero voltar ao meu carro, ligar o rádio e ouvir musica comercial, chegar a tavira e comprar o jornal, beber café e fumar cigarros e tenho a certeza que esta paisagem me irá povoar os sonhos mesmo que eu não queira. Não me arrependi mas não sei se volto.

Os lugares , os mitos , os sonhos, o escape, estar fora para querer voltar para dentro, é essencial para povoar a mente urbana. Nós precisamos, a cidade precisa e tudo o resto também.


_sebastiao