segunda-feira, julho 23, 2007
Durante este ano aprofundei o meu conhecimento na obra de Rob Krier, li sobre os conceitos de Cidade Sustentável, Cidade Compacta, Responsive Environments (não encontro nenhuma boa tradução para este) e qualidades urbanas da cidade tradicional, e projectei nestas bases.
Disseram-me que a minha abordagem era naïve.
Deixo-vos este vídeo worth spreading.
_diogo
domingo, julho 22, 2007

Aire e Candeeiros
em Alcanede estamos às portas da serra.
calcário/calcário/calcário/calcário
as estradas, as casas e a pouca agricultura seguem os vales, sempre atrás do rasto da terra rossa. são linguas vermelhas e verdes no meio do branco do maciço.
no século XVII vieram os monges de Alcobaça desbravar estes vales férteis onde não correm ribeiros, encheram-nos de oliveiras. mais tarde são as encostas que são desbravadas e desaparecem de vez os cercais, azinhais e zambujais. mais oliveiras plantadas pelos montes acima.hoje não há cercais, não há zambujais, não há azinhais, não há olivais. há pedra escalavrada, há pedra branca e descarnada por fogos sucessivos.
e no meio do pedregal um polje P O L J E, e outro polje. ainda com restos de água, e com aquela vegetação verde ali, no meio das pedras. que coisa mais estranha os polje, um mar ali no meio das pedras, um pequeno mar provinciano
80 % das casas de Mendiga, Alvados, Minde são feias, pirosas, com colunatas e telhados arrebitados, e pintadas do amarelo-mais-feio-do-mundo.
Porto de Mós e Mira de Aire são paradas, desoladas, com blocos de apartamento de 6 andares feios, feios, feios. e com a sua rua pedonalzinha calcetada. com as suas lojinhas mediocres.
chega-se aos Olhos de Água, e lá estão os olhos de água que são mesmo olhos de água. e tudo é água e vegetação frondosa. atravessa-se uma ponte : CEntro de interpretação dos olhos de água,
olhamos, estranhamos, tocamos na madeira de que o enorme edifício é enfeitado, placas finas de contraplacado a caminho do apodrecimento. tentamos entrar. não há ninguém, não há nada. não há programa, não há horário. só a placa : Inaugurado em 2004 pelo Exmo. Sr. Secretário de Estado do Ordenamento do Território Dr. Pedro Silva Pereira.
as fotografias são roubadas
_manel
terça-feira, julho 17, 2007
Numa actividade semelhante à dos antigos naturalistas, Arménio Matos percorre o país de lés a lés a recolher amostras da flora portuguesa. É possivelmente o último "colector" do país. E não há ninguém para lhe suceder. Ricardo Garcia (texto) e Daniel Rocha (fotos)
a Cheira intensamente a tomilho. O solo, calcário e pedregoso, tem uma aparência agreste, mas está revestido por um tapete de moitas coloridas, com tantas plantas diferentes, que é difícil imaginar alguém que saiba o nome delas todas.
O jardineiro Arménio da Costa Matos sabe. E recita-os em latim, com a naturalidade de quem assobia. "Eu não estou por dentro dos nomes comuns, lido mais com os nomes científicos", justifica.
A variedade da flora nesse ponto do país, o Parque Natural da Serra d"Aire e Candeeiros, é enorme. Estão contabilizadas pelo menos 570 espécies de plantas vasculares. Quatro em cada dez têm alguma utilidade medicinal ou como erva aromática.
Pelo menos 40 estão protegidas por leis internacionais. Dezasseis só existem em Portugal e em mais nenhum outro ponto do planeta. Mas a espécie que corre mais risco de desaparecer é representada pelo próprio jardineiro.
Arménio Matos é um dos últimos - se não o último - colectores de plantas de Portugal. A sua tarefa é percorrer o país, de ponta a ponta, recolhendo amostras da flora portuguesa. "É uma derivação dos naturalistas dos séculos XVIII e XIX", diz Helena de Freitas, directora do Jardim Botânico da Universidade de Coimbra.
Os antigos naturalistas circulavam pelo mundo e traziam na bagagem centenas de espécimes de plantas e animais inéditos para a ciência. O que Arménio Matos carrega consigo quando volta do campo, porém, são exemplares de plantas que já se conhecem. O destino é o banco de sementes do Jardim Botânico de Coimbra, que há quase um século e meio colecciona o património vegetal do país.
O primeiro catálogo de sementes do Jardim Botânico - o Index Seminum - foi publicado em 1868, quando o mundo ainda digeria o livro A Origem das Espécies, de 1859, no qual Charles Darwin explicou a sua teoria da evolução. Hoje, o catálogo serve sobretudo para facilitar as permutas de sementes com instituições semelhantes no exterior.
Uma cópia da brochura, com dezenas de anotações feitas à mão, acompanha Arménio Matos nas suas saídas de campo e é um dos seus principais instrumentos de trabalho.
Os outros são extraordinariamente simples: um saco plástico grande, envelopes usados para pôr as plantas, algumas folhas de jornal, um pequeno canivete. "E um sachinho que tenho aqui na carrinha, para apanhar plantas inteiras para herbário", diz o colector.
Quando desce da carrinha, Arménio Matos já vai curvado, a olhar para o chão e a apanhar amostras. "Esta é uma das que pedem mais", afirma, arrancando uma pequena planta pelo caule e ditando-lhe o nome científico.
Sendo as sementes o que interessa, não adianta apanhar amostras ao acaso. "Esta não dá porque ainda está em flor. Está muito atrasada", diz, descartando outra planta da qual não sabe o nome comum.
Agora com 52 anos, Arménio Matos começou cedo no Jardim Botânico de Coimbra, quando tinha 18. Aceitaram-no como jardineiro, e a primeira poda que o obrigaram a fazer foi na barba e cabelo comprido que tinha na altura.
Quando foi à tropa, surgiu-lhe a oportunidade de seguir a carreira militar. Mas não quis. "Não gostava de fardas e já era funcionário público", explica.
Regressou ao Jardim Botânico. Mais de três décadas depois, ainda mantém a sua categoria profissional inicial - a de jardineiro - apesar do saber único que acumulou desde então, em especial nos últimos 20 anos como colector.
Arménio Matos conhece cada palmo do terreno onde faz as suas recolhas. E sabe exactamente onde estão ou deveriam estar as plantas de que necessita. Chega junto a um muro de pedra, investiga rapidamente a vegetação, mas sai de mãos vazias: "O Omphalodes linifolia que eu apanhei cá no ano passado já cá não está".
Mais à frente, a busca é por exemplares de uma planta relativamente rara, a Arabis sadina. "Não há em muitos lados", diz, junto à vertiginosa paisagem da Fórnea - uma impressionante estrutura geológica, em forma de anfiteatro, em Porto de Mós. Mas também ali o resultado é nulo, o mato já tinha sido percorrido antes por um rebanho faminto. "Está tudo comido pelas ovelhas", lamenta.
Ainda assim, a cada meia dúzia de passos, mais uma planta diferente é recolhida. Mais um nome em latim é pronunciado. Mais um envelope é preenchido com amostras e adicionado ao saco plástico.
Quando o material chega a Coimbra, as sementes são extraídas das plantas, passam por um processo de secagem e finalmente são armazenadas numa câmara frigorífica.
O banco de sementes de Coimbra não representa toda a flora portuguesa. "Mas é o mais completo do país", assegura Helena de Freitas. No seu auge, chegou a ter sementes de 2600 espécies. Agora tem cerca de 1500.
A colecção tem de ir sendo reposta à medida que as sementes são cedidas para outros institutos ou não podem mais ser conservadas em boas condições. É este o trabalho de um colector: sair ao campo e trazer de volta o que falta.
Para a ciência nacional, o conhecimento que Arménio Matos tem das plantas e da sua distribuição geográfica é uma ferramenta preciosa. O colector ajudou, por exemplo, nos trabalhos que levaram à descrição de uma nova espécie de planta, a Arabis beirana, identificada na Serra do Açor há alguns anos.
Alunos da universidade assediam-no para ajudar na identificação de espécies. Investigadores pedem-lhe para trazer exemplares para os seus trabalhos académicos. "Desde que tenha conhecimento da planta, sei onde encontrá-la", garante. "A não ser que chegue lá e já lá não esteja, ou porque foi queimada com herbicida, ou porque está lá uma casa em cima".
Casos desses não são raros. Arménio Matos testemunhou o desaparecimento da carnívora Drosophyllum lusitanicum de Lordemão, Coimbra, à medida que casas e mais casas foram sendo construídas à volta do local onde a planta crescia. "Desapareceu", diz. Em outras situações, dizer onde se encontra uma espécie rara é meio caminho para o seu fim, por expô-la à colheita abusiva e descontrolada.
A profissão de colector já o levou a todos os cantos do país e até ao exterior. Mas quando se lhe pergunta qual é o sítio mais complicado para o seu trabalho, responde sem pestanejar: "É a Serra da Estrela." Ali há espécies raras de flora que só se apanham no Inverno. "Cheguei a ter de fazer escadas na neve para colher plantas", recorda.
Muitas plantas podem reservar dissabores aos mais desavisados. "Esta é venenosa", avisa Arménio Matos, apontando para uma erva de aparência inofensiva, que responde pelo nome de Euphorbia portlandica. O colector ajoelha-se, estende uma folha de jornal no chão e corta a planta com um pequeno canivete. Do caule, sai um látex branco, que é de evitar a todo custo, e uma história arrepiante basta como aviso: "Houve um colega meu que apanhou uma com a mão, na praia, e depois foi urinar. Teve de ir para o hospital."
As urtigas, é preciso saber como lidar com elas. Por exemplo, apanhá-las sempre com um movimento de baixo para cima e, de preferência, de manhã, quando os minúsculos espinhos estão mais moles. "Costumo dizer que ainda estão a dormir", graceja.
Quando Arménio Matos começou o seu trabalho como colector, havia mais quatro no Jardim Botânico de Coimbra. Os seus colegas foram-se reformando, com 35 anos de serviço. Restou apenas ele, que estaria à beira do mesmo destino, não tivesse o sistema de reformas na função pública sido alterado.
A seguir, não há mais ninguém. Um potencial sucessor que começou a trabalhar com Arménio Matos desistiu ao fim de algum tempo. "É preciso ter muita força de vontade. Temos de aprender, de nos agarrar aos livros", explica.
Foi isso o que ele próprio fez: introduziu-se no mister de colher sementes pela mão dos colegas mais velhos, depois foi estudando, por sua própria conta, a partir de obras de referência sobre plantas.
Nos tempos áureos, a equipa de colectores do Jardim Botânico chegava a fazer duas saídas por semana para o campo. Agora, resta apenas um membro do grupo original e não há dinheiro para quase nada. Muitas campanhas de recolha de sementes são feitas à boleia de outros projectos de investigação. Ou então pagas pelo bolso dos próprios investigadores.
Curvado sobre si próprio, com o saco de plástico numa mão e a vista cravada no solo, Arménio Matos prossegue na busca das sementes de que o Jardim Botânico necessita. Em outros países, a profissão de colector merece melhor tratamento, a começar por formação especializada e um estatuto profissional mais recompensador.
Em Portugal, não. Para uma actividade que, no passado, ajudou à desvendar a biodiversidade do mundo e que agora contribui para a sua preservação, o prospecto para o seu futuro no país é tristemente irónico. Helena de Freitas, directora do Jardim Botânico, resume numa frase: "É uma profissão em extinção."
no Jornal Público de 10 de Julho de 2007
_manel
quarta-feira, julho 11, 2007
conceitos de intervenção, metáforas formais, e o estar-se nas tintas para o que as pessoas e o espaço querem

aconteceu-me ontem ver vários projectos de ordenamento do território. prados e matas seguindo a forma de um moinho, mais prados e matas que desciam encostas como a lava de um vulcão de erupção calma, espirais de mata, mata em forma de espirais.
como é que a forma do território ( a uma grande escala) que é assim porque este foi trabalhado, porque ardeu e erodiu, porque alguém plantou árvores, porque o mato cresceu por si, porque se terraceou para vinha, porque as ovelhas o pisaram, porque as cabras o raparam até à última esteva, pode agora ser planeado com esta ligeireza: toda esta zona, estes 50000 hectares a partir de agora vão ter mata que vista do ar(!!!)terá a forma de uma vela de moinho porque esta zona tem muitos moinhos! a quem serve este planeamento senão ao ego do planeador. porque não dizer eu vou desenhar isto assim e assado porque acho que é o que está correcto, porque acho que fica bem, porque é o que as pessoas do sítio querem ou o que eu acho que elas querem, porque é prático, porque é bonito, porque se reduz a erosão............................ porqê seguir a forma de um objecto qualquer, porquê desenhar coisas num papel que só aasim o serão no local se vistas do ar, e será que ao decidir que aquele território será uma vela de moinho vista do ar não se vão fazer todas as adaptações e mais algumas para que isso aconteça, se vão deixar passar coisas que até seriam melhor assado para que naquele papel, aquele território tenha a forma de um moinho quando visto de cima?
uma coisa é um parque, ou o terreno de alguém, e aí que cada um escolha a forma que bem lhe apetece, outra coisa é num plano de ordenamento ditar a forma até à última consequência:" vocês que fazem hortas aí em baixo junto à ribeira façam favor de ordenar as vossas hortas em forma de beringela!"
e ouvi dizer que foi aprovado, e começará a haver planos de ordenamento do espaço rural à escala 1: 2000, em que algum iluminado nos ditará a forma do território ao pormenor da sebe e do murozinho de pedra solta, em que teremos de gramar com a forma do moinho ou da espiral voadora que o iluminado viu no programa da noite da rtp 2.
e para não falar de um ordenamento do território feito sem participação, sem real consciência do que é viável : " vocês que vivem nessa serra escalavrada vão fazer socalcos, para cuja construção vão ser precisas 500 pessoas a trabalhar das 5 da manhã às 9 da noite, e assim que esses socalcos forem abandonados porque a sua manutenção será butal toda essa terra vai pela encosta abaixo, mas isso a mim não me interessa porque os socalcos são giros"
chega desta corrente de oposição ao modernismo e que diz que forma pela forma porque a forma se adapta blá blá blá não quero levar com a vossa forma
_manel
sexta-feira, junho 29, 2007
hortas
O tema hortas urbanas é falado há muito. Tem sido debatido e defendido, e o Gonçalo Ribeiro Telles constantemente fala da importância da agricultura urbana, da relevância que já vem tendo em muitas cidades e dos contínuos relatórios da FAO que suportam estas ideias.
As causas desta vaga de ocupação de terrenos para hortas serão várias, mas os emigrantes recentes que procuram um complemento a péssimos ordenados e os reformados que por um lado têm reformas miseráveis e por outro não têm ocupação, são os principais actores deste fenómeno recente.
É portanto inconcebível que a C.M.L. e as restantes câmaras da área metropolitana estejam completamente insensíveis para uma verdadeira accção de cidadania activa por parte destas pessoas, e que o papel de um planeamento que tenha dados como este em conta poderia pelo menos começar a atenuar as diferenças brutais entre centro e periferia. Poderia assim surgir uma periferia em que os espaços sobrantes (agora tão falados e discutidos, e aliás tema da Trienal de Arquitectura de Lisboa, actualmente a decorrer) ganhassem potencial e que fossem o tal factor de esbatimento de diferenças. E este potencial não aparecerá, por um lado, enquanto todos os terrenos da área metropolitana de Lisboa que não estão construídos forem espaços em espera para construção, espaços comandados pela especulação imobiliária, e por outro, enquanto a accção das autarquias e possíveis atribuições de usos a vazios urbanos(1) não forem feitos de acordo com a vontade dos habitantes desses territórios.
Esta sensibilidade para com as vontades locais tem inúmeras vantagens, principalmente a possibilidade de poder contar com a população para manutenção do espaço que foi por eles desejado. As hortas urbanas são um óptimo exemplo, a intervenção camarária que seria necessária seria fundamentalmente ao nível da cedência de terrenos, e gestão dessas cedências, e da criação de infraestruturas como sistemas de rega, etc. Não exigiriam nem metade dos custos de um parque urbano convencional.
Deixo como sugestão, para quem tenha algum interesse pelo assunto, ou que queira passar um dia no campo sem praticamente sair do centro de Lisboa, uma visita a Marvila e ao Vale de Chelas. Aqui fica um plano de como chegar aos melhores locais.
(1) a definição vazio urbano é aliás muito interessante, segundo a mesma os vazios não fazem parte do urbano. O que é então urbano? A construção?
quinta-feira, junho 28, 2007
fitares
_manel
segunda-feira, junho 25, 2007
Increase your Albedo!
É através do mundo da moda que esta campanha quer chegar ao maior número de pessoas possível e mostrar que todos nós podemos fazer qualquer coisa para mudar o cenário.
Diversas modelos foram vestidas de branco e ao longo do próximo ano elas vão correr as festas e eventos culturais (cuidado com as nódoas de vinho) de Nova Iorque e outras cidades para mostrarem os problemas relacionados com o albedo.
Há também a sugestão para cada um de nós começar a usar roupas brancas , a ideia é fazer aumentar o nosso albedo - retirar o essencial do Sol e mandar o restante de volta para o espaço.

Pois eu acho que esta campanha (e este tipo de campanhas em geral) não funciona. Não só ninguém vai começar a usar roupas brancas só para aumentar o seu albedo (e isto passar-se-á não necessariamente por falta de interesse mas por falta de dados que sugiram que alguma coisa pode eventualmente mudar se todos vestissemos branco) como as entidades que realmente poderiam fazer alguma diferença não serão abarcadas pela campanha.
Não pretendo com isto dizer que acções de individuais não levam a nada, mas só usar roupa branca não é suficiente de certeza. Há uma enorme magnitude de acções de podem ser levadas a cabo todos os dias, mas estas têm que ser concertadas. Não sei como será exposto o problema nestas festas e eventos sociais mas, pelo que "vejo", só se pretende mostrar o albedo e os seus efeitos, sem se apontarem soluções ou medidas para além das já tão faladas roupas brancas.
Há também uma certa ironia nisto tudo, é que há alguma tendência para os artistas se vestirem de preto!
Referências: http://www.canary-project.org/ e http://canary-project.org/albedo/
Para quem quer fazer mais e tomar medidas concretas: http://www.fightglobalwarming.com/
_diogo
quarta-feira, junho 20, 2007
Discutir apenas os erros do modernismo e as “magias” do pós-modernismo pode-se tornar demasiado estúpido
Por esses livros e conferências de gente toda metafísica, que fala muito intelectualmente, “que Eu acho isto e o outro acha aquilo” ninguém fala da participação das pessoas, de vez em quando, até sim, mas só na teoria. Onde está essa participação? Em vez de teorizarem tanto sobre se o pilar devia ter mais um metro, para assim enaltecer a posição do homem quando caminha, ou se o parque devia ter um, dois, ou três hectares, com formas x.p.t.o., porque converge boas energias sociais, deviam mas é perguntar às pessoas o que elas querem construir e desenvolver teorias para implementar a participação colectiva. Esses dos livros e das conferências dizem “essa gentalha não tem consciência”, Claro que têm, A De Querer Viver Bem, e enquanto não lhes derem o poder de construir a casa, o bairro e as cidades menos terão, sem elas daqui a uns anos virão outros pós-qualquer-coisa-istas dizer, “errámos novamente”. Só com todas as pessoas é que teremos melhores cidades. Primeiro dêm-se as ferramentas , depois desenvolvam-se as ideias.
No mundo somos 6 mil milhões, 3 mil milhões vivem em cidades e mil milhões em bairros de lata. É neste Ponto que os ismos vão no caraças. Não é se os Olivais são mais habitáveis que Telheiras e se a Cité radieuse menos que os bairros da IBA(87) de Berlim, é 1/6 do mundo que vive em barracas. Cidades que crescem desenfreadamente em África, devido à guerra, e impossibilidade de vender produtos do mundo rural quando os seus mercados são infectados com produtos a preços mais baixos dos E.U.A. e Europa, levando massas de população para as Babeis (71% da população urbana na África-subsariana vive em favelas, Luanda que tinha 600 mil habitantes no fim dos anos 70 agora tem 4,5 milhões).
É a industrialização mega-Capitalista na Índia e na China que leva a um êxodo rural megalómano. Na televisão e na escola dizem-nos para nos preocuparmos com a competição chinesa e indiana que nos vai tirar a guita toda. Das cidades sujas, irrespiráveis para cá termos o sapato da marca x e a t-shirt da marca y, já ninguém fala, muito menos explicar que as empresas que andam por lá são as nossas fofinhas (50% da pop. Urbana na Ásia-meriodonal “enlatada”, 35% da pop. urbana da Ásia-oriental “embarracada”, Bombaim 18 milhões de corpos andantes, Xangai outros mais). E agora o clássico da América do Sul, que nos entra pelos olhos adentro, mesmo que muito disfarçadamente, nas telenovelas da Globo, aqui o êxodo é mais antigo, praí anos 60/70, com a tanga da revolução verde que ia acabar com a fome e melhorar as condições dos agricultores, os latifundiários apoderam-se do resto da terra que não dominavam, e toma lá um pontapé no rabo e vai trabalhar para a fábrica da cidade (31% da pop. Urbana da América Latina e Caraíbas “enfavelada”, Cidade do México 20 milhões de pessoas de carne e osso, São Paulo 19 milhões).
Para as pessoas destes bairros a participação pública é inevitável, os técnicos serão apenas os colaboradores. Assim e só assim teremos melhores cidades.
Em vez de toda a gente estar a teorizar sobre Coisinhas, não é que seja mau, claro que também é muito importante, mas acho que talvez devesse-mos começar a pensar um pouco mais sobre Coisonas. Com isto tudo, parece-me que discutir apenas os erros do modernismo e as “magias” do pós-modernismo pode-se tornar demasiado estúpido.
_pedro
sábado, junho 02, 2007
É necessário manter a marginalidade
Quando falamos de identidades expressivas e alternativas, ou neo-tribes, os locais ditos marginais, os que se situam na margem da sociedade, como locais escondidos na cidade, têm a potencialidade de serem locais de resistência e creatividade e podem ser usados como perspectivas alternativas de ver a cidade.
Ora, os vazios urbanos são talvez, dos espaços que compõem a cidade, os que melhor se enquadram na definição de espaços marginais e são, portanto, aqueles que mais facilmente suportam a função de centro simbólico onde os valores e práticas associados a uma indentidade são executados.
Sejam eles os vazios urbanos tipificados por Bernardo Secchi (são zonas que fundamentalmente esperam por uma definição morfológica. Resultam da desafectação do vasto arsenal de infra-estruturas do século XIX, como sistemas de caminhos-de-ferro, docas, ou complexos industriais), tão cedo como 1984, ou os terrain vague de Ignasi de Solà-Morales (espaços residuais da cidade pós-industrial. Este termo sublinha as complexidades inerentes aos espaços vazios, em desuso, e abandonados na cidade), ou os espaços que se tornaram vazios pela falta de um papel reconhecível na cidade (detectam-se no padrão típico do pós-guerra, são os espaços entre as coisas, entre os imensos objectos que são colocados pela cidade, uns a seguir aos outros. Reflectem uma sociedade contemporânea desfragmentada), todos têm um potencial de se tornarem espaços de ocasião, onde os valores e visões políticas, daqueles que partilham a mesma estrutura de pensamento, podem ser expressos e à volta dos quais identidades de grupos que se situam na margem da sociedade podem ser, ao mesmo tempo, executadas.
É a autenticidade e liberdade destes centros simbólicos, fora da rotina diária e valores da sociedade (simbólicamente fora da sociedade), que é procurada como forma de estabelecer e manter identidades alternativas e expressivas.
Se os espaços eles próprios investem os valores dos grupos envolvidos, se passam a ter uma centralidade social, então pode descrever-se este processo como utópico.
Utopia não é somente ideias acerca de um novo tipo de sociedade (perfeita), é, acima de tudo, acerca de práticas no espaço.
Uma visão utópica e a ordem moral que se pretende demonstrar são postas em prática através da anexação de ideias sobre uma sociedade melhor a lugares particulares.
Estes actos são sempre formas de oposição à ordem social, no entanto, identidades são formas de ordenamento.
A utopia associada a estes lugares não recai somente em atitudes de resistência, trangressão ou num modo de fazer visível uma alternativa, mas é também acerca de ordenar identidades em condições de incerteza.
Ir para uma margem e viver uma vida diferente, de forma altenativa, é um acto político, tal como manifestar-se ou actuar de forma visível é um meio de estabelecer e articular uma identidade distincta.
Estas práticas, estes actos de resistência, não resultam, de modo algum, na dissolução da sociedade. Pelo contrário, produzem modos alternativos de ordem social, expressões de uma utopia que se tornam o veículo para a execução de identidades.
É muito difícil, nos dias de hoje, caracterizarmos uma sociedade (não se consegue falar de uma identidade nacional, por exemplo) e vivemos cada vez mais à laia de pequenos grupos com os quais nos identificamos. Conflito, divisão e instabilidade, portanto, não destroem o espaço público, democrático, mas são as condições da sua existência.
O papel da arquitectura, que sempre foi o da imposição de formas, limites e ordem, é inevitavelmente problemático no que toca aos vazios urbanos. Se vivemos numa era onde a identidade pessoal não é estável, ou singular, e possui um potencial libertador, a atribuição de uma forma morfológica clara a estes espaços, quer de uma maneira inteligente quer de uma maneira mais tradicional em termos urbanísticos, resulta sempre numa intervenção reductora, que não traduz a verdadeira complexidade de uma sociedade fragmentada.
Os arquitectos têm a tendência de projectar no sentido de remover a condição negativa associada aos vazios urbanos ou de resolver os problemas de um lugar através do desenho.
Quando a arquitectura actua sobre um vazio urbano, parece incapaz de fazer alguma coisa além de introduzir transformações violentas, dissolver a magia incontaminada do obsoleto no realismo da eficiência, transformar o incultivável no produtivo, o vazio no construído.
Para que não se torne num instrumento de poder e razão abstracta, a arquitectura deve actuar com atenção à continuidade: não a continuidade da cidade planeada, eficiente e legítima, mas dos fluxos, energias e ritmos estabelecidos pela passagem do tempo e da perca de limites.
A vida urbana deve gerir-se à volta de um modelo de conflito, onde a necessidade total de determinação, coesão e harmonia não tem precedência.
Não vamos agora cair na tentação de preservar todos os vazios urbanos, a cidade tanto precisa destes como de todos os outros espaços que nela possam existir. É preciso avaliar as condições da sua génese e verificar a sua importância relativa no contexto urbano particular de cada cidade.
Todos os diferentes grupos que partilham uma estrutura de pensamento precisam dos seus espaços para praticarem as suas utopias e concerteza que nem todos constituem os vazios urbanos como os seus centros simbólicos.
Se todos vivessemos na margem, esta deixaria de existir. É preciso haver nós e os Outros, ordem e desordem, limites e falta deles.
_diogo