sexta-feira, julho 11, 2008

Africa selvagem


"He esta ilha de Bissau muito grande a qual encerra em si hu reino, limpo de mattos por cuia razão não tem tantos bichos ferozes (...)" (fr. André de Faro, 1662)

Liga-se a televisão e lá estão as girafas, lá estão os elefantes e as gazelas, os crocodilos, os hipopótamos. de vez em quando aparece um africano-indígena-tribal que parece andar por ali como se fosse um caçador recolector, como se vivesse de uns tubérculos e raizes que apanha por aquele chão vermelho. na áfrica dos programas da vida selvagem, África é animal e pronto.

O que não se mostra é que as paisagens africanas são assim porque há milénios que são trabalhadas, há milénios que as pessoas as vêm trabalhando com o fogo. que há centenas de pessoas que vivem ali ao lado daqueles bichos todos. que há ali um monte de gente informada, gente que por acaso é a dona daquele chão...

e há um monte de putos a fazer rap


_arnaldo

Bolanha Salgada

"De forma resumida, a técnica consiste em: identificar um troço de mangal que apresente boas características para o cultivo de arroz; "abrir um caminho" cortando a vegetação a toda a volta; isolar o terreno da invasão das águas das marés pela construção de um dique de terra; cortar a vegetação no seu interior; dividir o terreno em parcelas (priques:c), através de diques secundários; deixar que a água da chuvas provoque o apodrecimento dos troncos e raízes, para permitir o seu arranque ao fim de dois a três anos, época em que o terreno é armado em camalhões; ir progressivamente experimentando o cultivo do arroz com variedades adaptadas à fase de dessalgamento do solo". Marina Temudo in "Inovação e mudança em sociedades rurais africanas. Gestão dos recurssos naturais, saber local e instituições de desenvolvimento induzido"

A bolanha de água salgada é uma avançada técnica de cultivo de arroz utilizada na Guiné Bissau. Esta técnica foi trazida para a região de tombali (sul do país) nos anos 20 pela etnia balanta, levando a que outras etnias residentes (principalmente os nalus e os sossos) começassem tambem a produzir arroz de bolanha até aos dias de hoje, A própria região pela sua elevada pluviometria levou à transformação da técnica, sendo aqui os diques muito mais altos que os do norte da Guiné, na região dos balantas. Os recurssos transformaram a técnica e a técnica transformou as etnias residentes e a paisagem.
Em termos visuais é qualquer coisa de extrordinário, um fantástico rendilhado de dimensões muitas vezes quase infinitas, limitado por palmeirais e mangais.
Hoje a bolanha apesar de ser responsável pela produção de maior parte do arroz da região, tem vindo a ser abandonada, por consecutivos anos de seca, falta de mão de obra jovem e mais recentemente devido à destruição de diques pelas cheias.

1º imagem google de uma bolanha de Cadique (Cubucaré região de Tombali);
2º Bolanha de Catchamba (Cubucaré região de Tombali);
3º Bolanha de Cafal/Cafine (Cubucaré região de Tombali)



_pedro

segunda-feira, abril 28, 2008

A paisagem tem medo da «marca verde» ! O perigo do Lobo mau vestido de avózinha


Portugal esta a ser vendido a Lote, a paisagem não pertence a ninguem, nem aos Portugueses, nem aos Europeus , nem ao resto do mundo. Pertence sim aos «grandes empreendedores» capazes de injectar milhões para aceder á Lei PIN. Com este código de acesso, considerados assim os suportes do único «desenvolvimento» possível, o turismo , podemos continuar a encher o país do Betão. Assim nascem 25 mil camas na zona litoral de grandola, no ultimo reduto Europeu de praias Virgens, mesmo em cima da «incontornável» rede Natura.Assim as margens do Alqueva se transformem em belos pousios para os reformados holandeses...
Mas não se assustem... os resorts serão verdes, vão ter campos de Golf, belos jardins floridos,grandes piscinas ao lado do mar e do grande Lago, quase não vão gastar água...
Vão ter centros de educação ambiental para ensinar a reciclar , muitas casinhas típicas em cima dos solos que estes não prestam para nada.
Vão por os milhões de jovens do Alentejo a trabalhar simpaticamente nas recepções...e os velhotes podem ainda ir la contar umas históriazinhas de embalar.
A paisagem essa será assim cheia de «acontecimentos verdes», cheia de belas cercas que escondem um mundo fascinante por trás.Quem fica de fora da cerca que se amanhe...Ambiente? Isso não tem nada a ver com preservar paisagem, isso tem a ver com paineis solares...

PORTUGALLRESORT poderá ser o slogan futuro de Portugal.

Isto porque a especificidade de cada paisagem não interessa, não é isso em que assenta o turismo mundial...isso são coisas do tempo da avózinha. As pessoas gostam de viajar para verem o que ja viram.

E Portugal nunca vai deixar de ser moda mesmo quando for um amontoado de castelinhos da Barbie .

Agora é o tempo do Lobo mau, o capucho é verde....


_sebastião

quinta-feira, fevereiro 14, 2008

o cognac de Kapuscinski

Ryszard Kapuscinski (faltam vários acentos que o teclado português não permite) escreve bem. muito bem mesmo. descreve os sítios por onde passou como ninguém. porque descreve as pessoas. não há um minuto onde não fale de pessoas. e por detrás destas pessoas e das suas vidas surgem as paisagens, que vão aparecendo, e de repente estão lá totalmente, sabemos perfeitamente como são, estão mais do que nítidas.

Um texto sobre o fabrico de cognac na Georgia torna-se uma homenagem a esta relação divina com os alimentos. e de repente tudo o que está dentro daquela garrafa e que não se vê aparece.
E é precisamente neste ponto que a ASAE ataca, como uma hiena.


«Vajtang Inashvili me enseña su lugar de trabajo: una gran nave repleta de barriles hasta el techo. Enormes, pesados, dormidos, descansan sobre unos suportes.
En los barriles madura el coñac.
No todo el mundo sabe como se hace el coñac. Para conseguirlo hacen falta cuatro cosas: vino, sol, madera de roble y tiempo. Además, como en todo arte, hace falta gusto. El resto se presenta de la manera siguiente:
En otoño, despues de la vindimia, se fermenta la uva. El alcohol obtenido se vierte en barriles. Los barriles tienen que ser de roble. El secreto del coñac se esconde en los nudos de la madera. Mientras crece, el roble acumula sol. El sol penetra y se posa en los nudos, como el ámbar se posa en el fondo del mar . Es un processo que dura decenas de años. Un árbol joven no daria buen coñac. El roble crece, su tronco empieza a platear. El roble se robustece; su madera cobra fuerza, color y olor. No todo roble dará buen coñac. El mejor lo darán los árboles solitarias que crecen en lugares apartados y en suelo seco. Son los que han acumulado mucho sol. En un roble de estas caracteristicas hay tanto sol quanto miel hay en un panal. Los suelos humedos son acidos, por lo que el roble contiene demasiado amargor. Lo detectaremos al tomar el primero trago de coñac. El roble que en su juventud haya sido herido tampoco dará buen coñac. En el tronco herido los jugos circulan con dificultad, y la madera ya no tiene el mismo sabor.
Después los cuberos hacen los barriles. El cubero tiene que saber su oficio. Si falla el corte, la madera no dará el aroma deseado. Sí dará color,pero no soltará ni pizca de aroma. El roble es un árbol perezoso, y, sin embargo, haciendo coñac, tiene que trabajar. El tenero debe de tener el pulso de un construtor de instrumentos de cuerda. Un buen barril puede durar cien años. Incluso hay que tienem doscientos y más. No todos saldrán bien. Hay barriles sin sabor, y otros que dán un coñac que és oro puro. Sólo passados unos cuantos años se sabe como ha salido el barril.

En estos barriles se vierte el alcohol obtenido con la uva.

Quinientos, mil litros, depende. Se colocan sobre los suportes y allí se dejan. No hay que hacer nada más; sólo esperar. A todo le lhegará su tiempo. El alcohol penetra en la madera, y entonces el roble devuelve todo lo que ha acumulado: el sol, el olor y el calor.
Él arbol exprime sus jugos: trabaja.
Por eso tiene que tener paz.
Como respira, necessita de suaves corrientes de aire. Le gusta el ambiente seco. La humedad estropearía el color, daría un color pesado, sin luz. El vino gusta de la humedad; el coñac no la suporta. Es mucho más caprichoso. El primer coñac se obtiene al cabo de tres años. Tres años, tres estrellas. Los coñacs con estrellas son los más jóvenes, de baja calidad. Los mejores son los de marca, sin estrellas. Éstos han madurado durante diez, veinte, hasta cien años. Aunque, a decir verdad, la edad del coñac es aún mayor. Hay que añadirle la del roble del barril. En la actualidad se trabaja con robles que despuntaron en los tiempos de la Revolución Francesa.
La edad del coñac se reconece por el sabor. El joven es duro, rápido, como impulsivo. Tiene un sabor áspero, rasposo. En cambio, el viejo entra terso, suave. Sólo mas tarde empieza a irradiar. El coñac viejo alberga mucho calor, mucho sol. Sube a la cabeza con lisura, suavemente, sin prisas.
De todos hará su trabajo.»

em El Imperio de Ryszard Kapuscinski, Editorial Anagrama.


_manel

segunda-feira, fevereiro 11, 2008

(?)

arquitectura paisagista é estar ao computador 12 horas por dia (?)


é difícil quando se está o dia todo à frente de um ecrã de computador continuar a acreditar que se está a trabalhar com terra, pedras, plantas, água. é difícil não passar a pensar na linha, no hatch, no offset. só.


será que é possível projectar para um sítio onde nunca se pôs os pés, em que nunca se viu o chão? que nunca se cheirou.


além do mais fica-se com dores nas costas e nos olhos.


_manel

quarta-feira, janeiro 23, 2008

o eco resort de troia visto do ar a 21 de janeiro



ao menos podiam assumir.

agora andar a inventar conversas ecológicas é demais.

e já agora se todos têm piscina porque é que precisam de estar ao pé do mar?

transcende-me


_manel

terça-feira, janeiro 22, 2008

o choupal da Orquestra Metropolitana de Lisboa



cortaram os choupos que estavam no jardim em frente da Orquestra Metropolitana de Lisboa. cortaram-nos e os troncos rebentaram. e não só rebentaram como espalharam sementes por todo o terreno. nasceu um campo de choupos.

acredito que seja inspirador para quem está a tocar um instrumento dentro daquelas grandes janelas de vidro ver centenas de pequenos choupos.

o efeito é surpreendente e era dificil ter ficado melhor.

_manel

as canas e caniços de Isabel Azevedo


o jardim feito por Isabel Azevedo para o Hotel Vila Ópera junto ao rio dá nas vistas. passa-se e vê-se logo aquelas riscas de canas e caniços ao vento. quando a crocosmia está em flor olha-se e pronto, não há hipótese de não reparar. e sente-se que é um jardim resistente, que não vai ali um qualquer pisa e pronto e começa-se a estragar tudo.

é resistente mas tem um limite e agora foi lá uma máquina e pô-lo todo de pantanas.

é de esperar que ponham outra vez os caniços ao vento.

_manel

sexta-feira, janeiro 18, 2008

Viagem às Periferias de África





de Cima para Baixo

Cairo- 15 900 000 pessoas
Muqdisho- 1 500 000/3 000 000
pessoas
Luanda- 4 500 000 pessoas
Lagos- 10 000 000 pessoas
Conakry- 2 000 000 pessoas

_pedro

segunda-feira, janeiro 07, 2008





Ler o artigo do António Barreto do Público de 25 de Novembro sobre a ASAE dá uma volta profunda e total às entranhas. Dá vontade de pegar num garrafão de gasóleo, regar o edifício da Visconde Valbom e deitar-lhe fogo. Deitar fogo a todos esses decretos que vão acabar com a nossa saúde mental, que acabam com o que nos restava de civilização.


Aqui fica.



ELES ESTãO DOIDOS!Por António BarretoPublico 25.11.07


A MEIA DÚZIA DE LAVRADORES que comercializam directamente os seus produtose que sobreviveram aos centros comerciais ou às grandes superfícies vai agora ser eliminada sumariamente. Os proprietários de restaurantes caseiros que sobram, e vivem no mesmo prédio em que trabalham,preparam-se, depois da chegada da 'fast food', para fechar portas e mudar de vida. Os cozinheiros que faziam a domicílio pratos e 'petiscos', a fim de os vender no café ao lado e que resistiram a toneladas de batatasfritas e de gordura reciclada, podem rezar as últimas orações. Todos os que cozinhavam em casa e forneciam diariamente, aos cafés e restaurantes do bairro, sopas, doces, compotas, rissóis e croquetes, podem sonhar comoutros negócios. Os artesãos que comercializam produtos confeccionados à sua maneira vão ser liquidados.A SOLUÇÃO FINAL vem aí. Com a lei, as políticas, as polícias, os inspectores, os fiscais, a imprensa e a televisão. Ninguém, deste velhomundo, sobrará. Quem não quer funcionar como uma empresa, quem não usa os computadores tão generosamente distribuídos pelo país, quem não aceita as receitas harmonizadas, quem recusa fornecer-se de produtos ematérias-primas industriais e quem não quer ser igual a toda a gente estácondenado. Estes exércitos de liquidação são poderosíssimos: têmEstado-maior em Bruxelas e regulam-se pelas directivas europeias elaboradas pelos mais qualificados cientistas do mundo; organizam-se nogoverno nacional, sob tutela carismática do Ministro da Economia e da Inovação, Manuel Pinho; e agem através do pessoal da ASAE, a organização mais falada e odiada do país, mas certamente a mais amada pelasmultinacionais da gordura, pelo cartel da ração e pelos impérios doaçúcar. EM FRENTE À FACULDADE onde dou aulas, há dois ou três cafés onde osestudantes, nos intervalos, bebem uns copos, conversam, namoram e jogam àscartas ou ao dominó. Acabou! É proibido jogar!Nas esplanadas, a partir de Janeiro, é proibido beber café em chávenas de louça, ou vinho, águas, refrigerantes e cerveja em copos de vidro. Tem de ser em copos de plástico.Vender, nas praias ou nas romarias, bolas de Berlim ou pastéis de nata quenão sejam industriais e embalados? Proibido. Nas feiras e nos mercados, tanto em Lisboa e Porto, como em Vinhais ou Estremoz, os exércitos dos zeladores da nossa saúde e da nossa virtudefazem razias semanais e levam tudo quanto é artesanal: azeitonas, queijos, compotas, pão e enchidos.Na província, um restaurante artesanal é gerido por uma família que tem, ao lado, a sua horta, donde retira produtos como alfaces, feijão verde,coentros, galinhas e ovos? Acabou. É proibido. Embrulhar castanhas assadas em papel de jornal? Proibido.Trazer da terra, na estação, cerejas e morangos? Proibido. Usar, na mesa do restaurante, um galheteiro para o azeite e o vinagre éproibido. Tem de ser garrafas especialmente preparadas. Vender, no seu restaurante, produtos da sua quinta, azeite e azeitonas,alfaces e tomate, ovos e queijos, acabou. Está proibido. Comprar um bolo-rei com fava e brinde porque os miúdos acham graça?Acabou. É proibido. Ir a casa buscar duas folhas de alface, um prato de sopa e umas fatias defiambre para servir uma refeição ligeira a um cliente apressado? Proibido. Vender bolos, empadas, rissóis, merendas e croquetes caseiros é proibido. Só industriais.É proibido ter pão congelado para uma emergência: só em arcas especiais ecom fornos de descongelação especiais, aliás caríssimos. Servir areias, biscoitos, queijinhos de amêndoa e brigadeiros feitos pela vizinha, uma excelente cozinheira que faz isto há trinta anos? Proibido.AS REGRAS, cujo não cumprimento leva a multas pesadas e ao encerramento do estabelecimento, são tantas que centenas de páginas não chegam para as descrever.Nas prateleiras, diante das garrafas de Coca-Cola e de vinho tinto tem dehaver etiquetas a dizer Coca-Cola e vinho tinto.Na cozinha, tem de haver uma faca de cor diferente para cada género.Não pode haver cruzamento de circuitos e de géneros: não se pode cortar cebola na mesma mesa em que se fazem tostas mistas.No frigorífico, tem de haver sempre uma caixa com uma etiqueta 'produto não válido', mesmo que esteja vazia.Cada vez que se corta uma fatia de fiambre ou de queijo para uma sanduíche, tem de se colar uma etiqueta e inscrever a data e a hora dessaoperação.Não se pode guardar pão para, ao fim de vários dias, fazer torradas ou açorda.Aproveitar outras sobras para confeccionar rissóis ou croquetes? Proibido. Flores naturais nas mesas ou no balcão? Proibido. Têm de ser de plástico,papel ou tecido.Torneiras de abrir e fechar à mão, como sempre se fizeram? Proibido. As torneiras nas cozinhas devem ser de abrir ao pé, ao cotovelo ou com célula fotoeléctrica.As temperaturas do ambiente, no café, têm de ser medidas duas vezes pordia e devidamente registadas.As temperaturas dos frigoríficos e das arcas têm de ser medidas três vezes por dia, registadas em folhas especiais e assinadas pelo funcionário certificado.Usar colheres de pau para cozinhar, tratar da sopa ou dos fritos?Proibido. Tem de ser de plástico ou de aço.Cortar tomate, couve, batata e outros legumes? Sim, pode ser. Desde que seja com facas de cores diferentes, em locais apropriados das mesas e das bancas, tendo o cuidado de fazer sempre uma etiqueta com a data e a horado corte.O dono do restaurante vai de vez em quando abastecer-se aos mercados e leva o seu próprio carro para transportar uns queijos, uns pacotes de leite e uns ovos? Proibido. Tem de ser em carros refrigerados.TUDO ISTO, como é evidente, para nosso bem. Para proteger a nossa saúde.Para modernizar a economia. Para apostar no futuro. Para estarmos na linha da frente. E não tenhamos dúvidas: um dia destes, as brigadas vêm, comestas regras, fiscalizar e ordenar as nossas casas. Para nosso bem, poisclaro.«Retrato da Semana» - «Público» de 25 de Novembro de 2007




_manel